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HOMOSSEXUALIDADE, LESBIANISMO - BISSEXUALIDADE
26-07-1993
A sexualidade está no centro das preocupações dos estado-
unidenses. A abordagem é complicada, considerando-se a tradição puritana do País.
Bill Clinton prometeu dar acesso aos gays no glorioso Exército Americano. Causou uma polêmica sem fim. Os oficiais, endurecidos nas guerras sujas, ofereceram resistência. Seria a avacalhação. O fim. E a virilidade do soldado ianque?
Clinton ensaiou um recuo e perdeu parte de sua credibilidade. Admitiriam os homossexuais discretos, no estilo “você não confessa, eu finjo que não sei”. Pelo menos, evita-se o constrangimento das expulsões sumárias de “suspeitos”, embora seja possível que imponham condutas rigorosas nos quartéis para evitar problemas.
Os jornais levantaram a questão do machismo militar. Um editorialista do New York Times fez um longo levantamento histórico para mostrar que heroísmo e homossexualidade convivem perfeitamente bem, se aceitarmos os exemplos da Grécia Antiga, do Império Romano e até das Cruzadas.
Jovens amantes lutavam juntos com mais ardor. Iam à guerra com mais devoção, ou participavam das Olimpíadas com redobrado esforço. Homossexualidade não teria nada que ver com efeminez ou pederastia, que são modos e vícios.
As prostitutas e os tarados, por acaso, são autênticos representantes da familiaridade ou masculinidade?
Por que, então, associar a pederastia à homossexualidade?
Agora os cientistas norte-americanos tentam ir mais longe,
ao levantarem a tese do gene da homossexualidade. Depois de pesquisas com gêmeos, argumentam que a homossexualidade não seria comportamental natural, como expressão sexual verdadeira, e não apenas como um “desvio de comportamento”, embora seja possível admitir que alguns possam assumir a pederastia como forma de prostituição, sem serem homossexuais.
Uma verdadeira revolução!
E dizer que os homossexuais ainda são fuzilados no Irã e que só agora, na Rússia, abrandam-se as leis para admiti-los, ainda que verdadeiramente, sem direitos mínimos.
Na revista Manchete, ontem, uma entrevista com a ex-feminista Camille Paglia, da Filadelfia, soou inusitada. A entrevistadora foi a Bruna Lombardi, que agora vive nos Estados Unidos. Paglia afirmou ter sido feminista, mas agora odeia feministas, e é odiada por elas... Para ela, toda feminista é uma mal-amada, uma frustrada , colocando no homem as causas de uma desgraça pessoal que só cabe a ela mesma...
A mulher seria uma eterna dominadora, a eterna mãe dos maridos, dos amigos, dos filhos. Os homens, eternamente subjugados a essa estranha fixação: o homem saiu da mulher, será sempre considerada parte sua, desprendida.
Um complexo de amputação, de perda...
O homem sempre tímido, sempre em desvantagem.
A vagina será sempre o lugar de onde ele veio, e o sexo uma forma de incesto! Toda e qualquer mulher será sempre uma espécie de mãe...
Miss Paglia acha mais natural as relações entre homens!
E, paradoxalmente, acha sempre frustrante as relações lésbicas, porque a mulher é sempre incapaz de amar outra mulher, sempre rival.
Ela mesma confessou ter siso uma lésbica assumida por muitos anos, vendo nos homens a fonte da opressão e do sofrimento. Hoje acredita que a fonte era ela mesma...
Considera-se agora bissexual, mas sexualmente em eterno fracasso. Intelectualmente, em pleno apogeu. Uma força compensando a outra. Hoje estaria sozinha, nem tanto por vontade própria, mas pelo reconhecimento de sua incapacidade de conviver. Em um relacionamento amoroso, ela sempre desejará possuir, dominar, sufocar!...
E está irremediavelmente apaixonada de si mesma.
Teses polêmicas, incômodas para a maioria das pessoas. Seu livro, no entanto, apesar do escândalo, vem causando furor.
Bruno Lombardi informou que ela é também amada por muitas jovens que aprendem com ela a ser livres.
Fiquei impressionado com a força, a franqueza, a agudeza do raciocínio da entrevistada. Pareceu-me muito corajosa e autêntica. Séria. Não passou para mim a noção ou impressão de ser alguém amarga, embora seja dura e radical.
A cena final foi emocionante, quando ela beijou a Bruna, agradecendo a oportunidade de comunicar-se, de fazer sua catarsis pública.
Detrás de toda aquela rigidez deve estar um ser carente, humaníssimo.
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